Nasceu na Nazaré. À beira mar. Com apenas um ano de idade partiu com a família para o Canadá. Em busca de uma vida melhor. Por lá cresceu, ganhou amigos, criou alguns laços. Numa pequena localidade, Leamington. Aos 12 anos, nova mudança de vida. O regresso a Portugal, ao ponto de partida, era uma inevitabilidade. A Nazaré voltou a recebe-lo de braços abertos. Em Portugal passou a adolescência e ganhou o prazer de jogar futebol. Esta história tem um nome: Mauro Eustáquio. Franzino, de sorriso fácil, depressa conquistou amigos. Grande parte deles durante o seu percurso pelos Nazarenos, clube da terra.A habilidade demonstrada nos relvados, ainda em tenra idade, abriu-lhe horizontes. Seguiu-se uma experiência no União de Leiria, clube que, na altura, andava ainda nos principais palcos do futebol português. Foi aí que se debateu com a sua primeira grande decisão profissional. Um convite inesperado, mas que o encheu de orgulho. Um convite para representar a seleção sub-20 canadiana. Não era uma decisão fácil. Umas semanas antes havia rumores de que poderia ser chamado às camadas jovens da seleção portuguesa. «Acabei por escolher o Canadá. Não podia recusar porque ainda tinha laços fortes ao país. Não me arrependo», começa por dizer Mauro Eustáquio.Os poucos jogos na seleção canadiana foram decisivos para o passo seguinte. Um passo mais arriscado. Ou talvez não. Um dos adjuntos da seleção canadiana, Philipe dos Santos, filho de emigrantes portugueses, recomendou o talentoso médio ao irmão, Marc dos Santos, treinador da equipa principal do Ottawa Fury. Alguns vídeos bastaram para convencer a equipa canadiana que participa no campeonato da NASL, antecâmara da MLS americana. Uma liga de 12 equipas americanas e duas canadianas.

Um mundo novo

20 de fevereiro de 2014. O dia não mais será esquecido. Data em que chegou ao Canadá rumo a um novo mundo. Um mundo que já conhecia. Mas de forma diferente. A todos os níveis. Mais, obviamente, no que respeita ao futebol. Seria no Ottawa Fury que cumpriria o primeiro ano como sénior.«Tem sido uma experiência única. O futebol aqui está cada vez mais competitivo, com grandes jogadores a chegarem. Ainda esta semana chegou o Ibson, que jogou no FC Porto. É sobretudo um campeonato mais físico, mas que está a ser muito observado. A nível social é um povo muito educado, um país onde as coisas se resolvem quase sempre a bem», conta.No Canadá, da família, apenas resta um tio que ainda mora em Leamington, muitas horas de distância de Ottawa, local onde Mauro reside. Em Portugal estão quase todos, incluindo o irmão, jovem promessa no Torreense, de nome Stephen Eustáquio.No clube ganhou novo familiar. Oliver, médio brasileiro, 22 anos, antigo jogador do Nacional da Madeira. Com ele partilha a casa. «O clube arranjou casa perguntaram ao pessoal solteiro se havia problemas em dividir uma casa. Foi assim que aconteceu. É um bom amigo e assim a adaptação até se torna mais fácil para ambos».

David Silva, Javi Garcia e… Saviola

Mauro Eustáquio já tem algumas histórias para contar. Os sonhos estão bem presentes: jogar um dia na MLS e representar a seleção principal do Canadá. Aos 22 anos qualquer um está ao seu alcance. Para já não pensa em sair. Apesar de não ganhar fortunas tem o suficiente para ganhar estabilidade financeira. No Canadá os clubes pagam de 15 em 15 dias.«Estou bem num projeto ambicioso, com um treinador que aposta em mim. Estou feliz mas obviamente se aparecer algo melhor vou pensar», sublinha.No Canadá, em pouco mais de um ano, conseguiu algo que em Portugal seria certamente bem mais complicado de concretizar. Exemplos? Muitos.«Jogar em estádios cheios, por exemplo. Mas outros. Por exemplo, no ano passado fomos jogar a Minnesota, num estádio onde no jogo antes tinha jogado o Olympiakos com o Manchester City numa partida particular. Passei ao lado de Javi Garcia, Joe Hart, David Silva e ainda tive a oportunidade de trocar algumas palavras com o Saviola que estava no Olympiakos. Disse-lhe que era adepto do Benfica [risos]… Não deu para falar muito. Mas também tive a oportunidade de jogar contra o Marcos Senna, hispano-brasileiro, que foi campeão do Mundo com a Espanha. Estava no New York Cosmos. Este ano reformou-se… Era craque», desabafa.

Raul González, o sonho que se segue…

Outro poderá cumprir-se esta época. Precisamente contra a mesma equipa, o New York Cosmos que apresentou o reforço do ano: Raul, antiga estrela do Real Madrid e da seleção espanhola. «Será incrível poder jogar contra ele. Será a principal atração do campeonato. Não vejo a hora de isso poder acontecer», deseja.

Miguel Mendes –  A Bola