Um dos objectivos do desporto passará pela procura de obter o bem-estar, físico emocional do praticante, evidenciando-se esta questão quando falamos de idades entre os 9 e os 12 anos, onde a iniciação desportiva será parte integrante da sua vida.

O desporto para a criança é visto como um bem precioso, onde ele pode fazer amizades, aprender a competir, cooperar, e adquirir algumas das mais importantes competências de vida. Sabemos, no entanto, que isto nem sempre coincide com a realidade! Será que já nos questionámos quais as razões que levam as crianças a desistirem de determinadas actividades?

Alguns estudos realizados nos EUA e na Europa revelam que, na grande maioria, estas desistências acontecem devido ao fracasso na competição (encarando a derrota na competição como sinónimo de fracasso). Nestes estudos podemos ainda observar que as actividades desportivas são leccionadas por pessoas pouco credíveis e que muitas das vezes nem sequer têm formação para identificar quais os principais objectivos a desenvolverem com um grupo etário como este (9-12 anos). Estamos perante um problema, que se arrasta há anos!

O que podemos fazer? Será que os pais também podem ser culpados, e a cultura desportiva de cada país tem alguma influência?

Sem dúvida que estamos perante um problema já muito antigo e que teima em persistir na nossa sociedade, pois cada vez mais se dá maior relevância aos golos que o menino/a marcou ou à competição que ganhou, do que aos amigos que tem, ao espírito de companheirismo e até mesmo em relação ao nível de cooperação entre atletas e todos os outros que se envolvem directa ou indirectamente na competição com quem ele contacta.

Todos sabemos que a tradição familiar é muito importante para a iniciação da prática desportiva dos jovens. O normal é o filho seguir as pisadas dos seus progenitores, quanto mais não seja na primeira modalidade, podendo vir depois a seguir os seus próprios passos. Sem dúvida que a influência e o apoio dos pais são consideradas como muito importantes para os filhos neste primeiro momento. Por isso, se os pais derem mais importância às vitórias e não estiverem atentos também às derrotas de uma forma educativa, podemos ter aqui um dos primeiros factores de stress competitivo infanto-juvenil visto que está provado que a percepção da importância da competição por parte da criança é um dos maiores factores para que isso aconteça. O segundo intimamente ligado ao primeiro é a avaliação e julgamento feita por terceiros (pais, treinadores, família, amigos) em relação à performance do jovem durante a competição. O terceiro ligado aos dois anteriores é a auto-avaliação do jovem em relação às suas capacidades para a prática desportiva (sendo assumido por vários autores como o maior gerador de stress em competição).

Sendo assim, temos a possibilidade de estar atentos a quem está a trabalhar com os nossos filhos e como. Com que objectivos e quais os valores a serem transmitidos, dando assim a oportunidade das nossas crianças terem uma actividade que contribua para o seu bem-estar e seu desenvolvimento, sem que seja mais uma que lhe provoca problemas e dúvidas em relação a si e à sua relação com os outros.

Ricardo Cardoso
Psicólogo
Pós-graduação em psicologia desportiva e do treino – Vigo, Espanha