A simples conversa com colegas da nossa profissão (sim, escrevi profissão) é, por vezes, um exercício de aquisição de conhecimento maior do que a observação de um jogo ou mesmo do que uma hora de formação que possamos ter. Em algumas situações, a partilha de conhecimento com outros colegas treinadores deixa-me a pensar 10 vezes mais do que o tempo que passámos a conversar sobre um determinado assunto. Foi o que se passou aqui há dias em dois momentos diferentes e com dois treinadores diferentes. Ouvi de um qualquer coisa como isto: que a sua equipa de traquinas já “basculava como ele queria em processo ofensivo no sentido de criar mais linhas de passe ao portador da bola…tal como no Bayern”. Fiquei intrigado… Mas, pouco tempo depois, em conversa com um grande amigo e colega treinador vejo que nem todos pensamos da mesma forma e que esta ideia de formatar o jovem jogador quando ele ainda é uma criança pré-adolescente e, neste caso num ponto de vista distrital, será de facto formá-lo no futebol e para o futebol?

Verifico muitas vezes que ao tentarmos formar da melhor forma o jogador acabamos por seguir ideias ou formas de jogar (como queiram) que têm como base ou princípio a equipa ou treinador de que gostamos ou mesmo uma ideia de jogo que pensamos ser a melhor para determinado jogador e o que acontece, por vezes, é que acabamos por castrar determinados ‘skills’ e competências que, na minha opinião, são fundamentais. Fundamentais até porque mais tarde acontece uma coisa interessante: procuramos ‘craques’ para aquilo que é ‘decidir jogos’ e não os temos. Um exemplo claro é o que por vezes verifico nos escalões de traquinas, benjamins e até infantis no âmbito distrital quando se pretende que os miúdos tenham uma dinâmica de posse de bola de certa forma similar à identidade de algumas das grandes equipas do mundo. O que acontece é que depois os jogadores deixam de utilizar a finta, a simulação e até outros ‘skills’ em muitas situações de jogo prejudicando a criatividade e a espontaneidade do atleta e aliado a isso temos o problema de eles serem quase, digamos, robôs perante uma dada situação no jogo não lhes dando a possibilidade de reagirem da melhor forma a essa mesma situação. Isto tem tudo a ver com treino pois é aí que se fazem os erros, nomeio alguns:

  • Situações de exercício em que o atleta chega à baliza e volta para trás para fazer outra tarefa, desvirtuando o jogo;
  • Situações de exercício rígidas, sem possibilidade de haver progressão;
  • Situações de exercício que não permitem a criatividade e a resolução de problemas com múltiplas hipóteses;
  • Situações de exercício que não permitem que se faça a finta e a simulação em situações que o deveria ter feito, especificamente quando tem um adversário pela frente que à partida o atacante consegue fintar.

Vendo as coisas a longo prazo, se todos os treinadores destes escalões ‘formatassem’ os seus atletas dessa forma e mais especificamente no contexto distrital, provavelmente andaríamos daqui a uns anos à procura de jogadores ditos ‘craques’ que conseguem encontrar uma multiplicidade de soluções para a mesma situação e seria muito difícil encontrá-los. Deveremos por vezes refletir e pensar que, quando tínhamos a idade deles e a jogar Futebol de Rua, encontrávamos múltiplas soluções para um problema e era com esses problemas e com a consequente solução que íamos aprendendo. Será assim importante nestas idades que planeemos muito bem os exercícios para que não exageremos na nossa ideia rígida de jogo e deixemos também espaço para a criatividade e a espontaneidade fundamentais no presente e no futuro do futebolista.

Renato Fernandes – Treinador e Professor na ESDRM