No futebol juvenil acabamos por reportar os nossos discursos, opiniões e descrições para os óbvios agentes desportivos como o são os jogadores, os treinadores, os árbitros, os adeptos, os pais e até mesmo massagistas, fisioterapeutas, etc., mas, por vezes, esquecemo-nos de um que é, na minha opinião, importantíssimo senão mesmo fundamental: o dirigente desportivo (permitam-me que o identifique por diretor. De facto, não é o mais correto, mas foi o termo que eu e muitos colegas treinadores nos habituámos a identificá-lo).

Trata-se de um ‘cargo’ fundamental, pois muito do sucesso de uma equipa depende desta(s) pessoa(s). Ainda assim, tenho verificado ao longo dos anos, seja por ter experienciado pessoalmente seja por ter observado em outros clubes e contextos, que, por vezes, existem problemas entre os diretores de escalão e os treinadores que influenciam de forma negativa todo o escalão, atletas incluídos, e até mesmo o clube e a vida pessoal e familiar dos intervenientes. Não pretendo aqui encontrar culpados nem inocentes, pretendo, isso sim, alertar para as situações que podem acontecer e que podem ser prevenidas ou eliminadas a bem do sucesso do escalão em que estão inseridos.

Denoto que os problemas que ocorrem entre treinadores e diretores do escalão ao longo da época são essencialmente devido aos seguintes aspetos:

  • Missões pouco clarificadas de cada um;
  • Comunicação deficiente;
  • Expetativas em relação ao seu trabalho.

Devemos, no entanto, considerar que em alguns clubes existem regulamentos internos e muitas dessas linhas orientadoras estão aí expressas em forma de regra, pelo que, nesse caso, os problemas serão mais fáceis de gerir.

Poderão, como é óbvio, existir mais aspetos, mas para estes existe uma pequena solução que me parece essencial: realizar uma ou mais reuniões antes de a época começar onde, num ambiente de perfeita cordialidade sejam definidas linhas orientadoras para a missão dos diretores e treinadores e no relacionamento com os treinadores e atletas. Alguns exemplos:

  • Quais as missões dos treinadores e diretores;
  • Como deve ser feita a comunicação entre eles;
  • Como deve ser feita a comunicação dos diretores com os atletas;
  • Qual a ação ao seu trabalho.

No fundo, e dependendo dos clubes, a ideia que fica é que os diretores estão lá para tratar dos equipamentos, pagamento das cotas, tratar das sandes e pouco mais mas serão essas somente as suas missões? Não poderão ser mais? E mais importantes?

Dou-vos alguns exemplos que estou convicto que se identificam: quando a equipa perde o que é que o diretor deve fazer? Deve falar com o treinador? Com os atletas? Se os pais forem ter com os diretores devem falar com eles ou não? Devem dar sua opinião face a questões técnico-táticas nem que seja só questionar?

Outro aspeto neste âmbito que considero importante é o facto de muitos diretores serem também pais e aqui as dúvidas e dificuldades em definir concretamente qual o seu papel ainda poderão ser maiores. Como deve o treinador lidar com um diretor de escalão quando o seu filho não é convocado? E quando é convocado mas não entra em campo? Deve-se justificar o porquê? O diretor tem a possibilidade de falar com o treinador no sentido de procurar saber a resposta mas… será que deve? Será que o diretor pode vestir a camisola de pai em alguma situação enquanto exerce essa função?

Uma coisa eu sei: o trabalho conjunto entre treinadores e diretores, quando reúne boa comunicação, respeito mútuo e estratégias de ação claras e bem definidas, ficamos “condenados ao sucesso” e isso é o que me parece que todos nós procuramos… Não será?

Renato Fernandes – Treinador e professor da ESDRM