Estamos agora em período de férias na maior parte das equipas de futebol juvenil. Aquelas que não estão, são as que disputam os campeonatos nacionais. Penso ser um período indicado para a abordagem a um tema que considero tanto relevante como intrigante: a elaboração dos exercícios de treino. Relevante porque é a unidade de todo o processo de treino sendo o instrumento que o treinador possui para conseguir concretizar os objetivos definidos, intrigante porque a meu ver, este é um dos aspetos onde podemos encontrar grandes diferenças nos treinadores.

Essas diferenças estão no essencialmente relacionadas com a metodologia utilizada para a elaboração, concretização e condução dos exercícios. Para ser mais direto, o problema inicial será: que exercício elaborar? Pois bem, é logo aqui que o erro se apresenta pois, na minha opinião, não se deve formular essa questão mas sim: para este objetivo, que exercício devo fazer? Ou seja, o(s) objetivo(s) é que deve(m) orientar o treinador e fazer com este se sinta na necessidade de criar um exercício no sentido de concretizar esse objetivo. Quando não se trabalha desta forma, o que acontece é aquilo que se identifica em alguns treinadores e que vem fazer com que o treino e a formação de jovens futebolistas estejam logo aqui errados uma vez que são criados exercícios descontextualizados, inconsequentes e incoerentes.

Vou identificar aqui aquilo que considero como erros nesta temática e que decorrem um pouco da minha experiência com casos reais:

  • Criação de exercícios que foram retirados da observação de outras equipas/clubes;
  • Criação de exercícios que foram retirados da observação de outros escalões etários;
  • Criação de exercícios a partir do visionamento de vídeos de outras equipas e com outras metodologias e por vezes até em outros países (muito em voga hoje em dia com a ajuda da internet onde podemos encontrar de tudo);
  • Criação de exercício tendo como referência uma metodologia de treino de um treinador ou clube de referência (por exemplo: “(…) vi o exercício que o Mourinho fez no Chelsea e vou aplicá-lo hoje no meu treino.”
  • Criação de exercícios a partir de livros com compilações de exercícios.

Para além deste aspeto, e procurando não sair da temática, um outro erro que podemos identificar é a não planificação da Unidade de Treino e logicamente dos próprios exercícios. Essa planificação até pode nem estar no papel mas se não houver uma definição do processo (exercícios de treino) para atingir um fim (objetivo), torna-se muito difícil a condução, a gestão e a organização do exercício e consequentemente da própria sessão de treino.

Outro aspeto que também considero essencial é que no momento da criação devemos ter como premissa que os exercícios devam sempre estar de acordo com aquilo que se passa no jogo. Atenção! Não é agarrar no jogo e jogá-lo mas sim, sempre que possível, criar situações específicas de jogo e condicioná-las no sentido de melhorar a performance individual e coletiva pois é no jogo que está a essência da aprendizagem no futebol.

Acredito, no entanto, que existem treinadores com mais facilidade para terem imaginação (por vezes é isto mesmo) do que outros e dessa forma, a criação de exercícios em função dos objetivos definidos seja mais fácil, o que não posso acreditar é que não haja objetivos.

Não devemos no entanto ser 8 ou 80, ou seja, também não é construtivo ser demasiado obcecado com a criação de exercícios e por vezes até “bloquearmos” na sua planificação. Aqui mais uma vez reporto para os objetivos definidos e refiro que se os tivermos sempre presentes connosco, o exercício ideal irá com certeza aparecer.

Renato Fernandes – Treinador da equipa feminina do A-dos-Francos e professor na ESDRM