Na última crónica que escrevi (preparação do início da época) deixei no ar a informação que nesta iria debruçar-me sobre um tema que considero fundamental (por vezes até decisivo) na preparação da época desportiva de uma equipa. Entendo que a escolha do capitão é uma decisão importante no seio de uma equipa de futebol de formação e que deve obedecer a uma reflexão muito cuidada dos treinadores e até por vezes, dos diretores, dessa mesma equipa.

Desde já aproveito para esclarecer que entendo esta escolha como uma escolha no plural, ou seja, nós os treinadores devemos ter a tarefa de escolher os capitães e não o capitão. É minha opinião também que se devem escolher três isto porque, como todos sabemos, com o decorrer da época, podem surgir imprevistos como lesões, processos disciplinares ou mesmo abandonos.

No estabelecimento de critérios na definição dos capitães há um aspeto que desde logo se apresenta como fulcral: o facto de o próprio clube já ter definido esses mesmos critérios no seu regulamento interno. Se isso acontecer, devemos obviamente cumpri-lo mas não quer dizer que não possamos discordar. Escrevo isto porque entendo que em algumas situações esses critérios estão um pouco desfasados da realidade das equipas pois têm em consideração aspetos como o mais antigo no clube ou o que foi o capitão no ano passado, etc. Perante esta situação, o treinador deve tentar demonstrar junto do seu coordenador ou da direção que, por vezes, não serão estes os melhores critérios para a sua equipa, pois os jogadores que poderão encaixar-se nesses critérios não apresentam as características ideais ou talvez se possa dizer simplesmente que não têm perfil de capitão.

Eis que surgem as questões chave: o que se entende por Perfil de Capitão? Quais são as características que devemos identificar como sendo aquelas que definem o perfil de capitão?

É minha opinião que devemos seguir aquilo que entendemos como o nosso perfil de capitão que, no meu entender, são os atletas que demonstram mais responsabilidade e compromisso na tentativa de atingir os objetivos definidos pelo treinador no Modelo de Jogo da sua equipa, constituindo-se um exemplo para os colegas da equipa. Ou seja, se queremos uma equipa extremamente competitiva e que precisa de ganhar a todo o custo o capitão deverá apresentar boas características comunicacionais e motivacionais, ou seja, deve ser competitivo e motivador. No entanto, se é uma equipa que possui algumas debilidades técnico-táticas e que, por isso, perderá muito mais, será importante ter um capitão que seja bom jogador e com muito bons recursos para lidar com a adversidade, demonstrando ser excecional em momentos de dificuldades. Por vezes, também será importante ter um capitão com aquilo que vulgarmente se chama de “mais experiência”, ou seja, aquele atleta que sabe gerir muito bem uma equipa constituída por atletas que não estão tão habituados àquele tipo de competição.

Na minha opinião o critério de continuidade poderá não ser o mais correto. Isto é, manter um capitão na época seguinte porque já era ele na época anterior, a não ser que seja mesmo ele que cumpra os requisitos que defini atrás, poderá já não ser a melhor opção porque na presente época, provavelmente a competição, o grupo de atletas e o treinador serão diferentes e mais importante que isso, poderão até, os objetivos serem diferentes.

Ainda assim deixo aqui outros critérios que, por ordem decrescente de importância, se devem ter em conta: a antiguidade no clube, a antiguidade na prática de futebol, as competências técnico-táticas, as capacidades de comunicar com o grupo e de o liderar, o mais motivador, alegre e entusiasmante e que por isso faz um bom balneário.

Renato Fernandes – Treinador e professor da ESDRM