Muitas das vezes, melhor dizendo na sua maioria, treinadores e atletas, pais e dirigentes exigem competências psicológicas a quem está a competir sem que nunca essas tenham sido treinadas.

Os Programas de Treino de Competências Psicológicas (PTCP) servem exactamente para isso, aprender e treinar as competências psicológicas. Discutiremos então algumas das implicações e sugestões práticas para os atletas e treinadores.

Um primeiro aspecto a realçar é o facto do treino mental poder realmente ajudar os atletas a melhorar o seu rendimento desportivo, bem como a encontrar os estados psicológicos óptimos para renderem no máximo das suas potencialidades, tanto nos treinos como nas competições e provas desportivas. Neste sentido, os PTCP partem do princípio de que as competências psicológicas podem ser ensinadas e de que os atletas são primeiro seres humanos e só depois atletas (Cruz & Viana, 1996). Em termos práticos, isto significa que os objectivos deste tipo de intervenção podem estar centrados na promoção do crescimento e desenvolvimento pessoal dos atletas ou na melhoria e optimização do rendimento desportivo, sendo esta última a solicitação mais frequente em contextos desportivos de alto rendimento. Normalmente, os PTCP seguem três fases distintas: a) a sensibilização e educação dos atletas e outros agentes desportivos para a importância da aprendizagem de determinadas competências mentais (ex: se pretendemos ensinar ao atleta a controlar os seus níveis de ansiedade, ele também deverá conhecer as causas da ansiedade e o modo como ela pode prejudicar o rendimento desportivo); b) a aquisição, por parte do atleta, de técnicas e estratégias que facilitem a aprendizagem das competências psicológicas (ex: no caso referido do atleta com problemas de ansiedade, se ele sente dificuldades em controlar sintomas fisiológicos, como seja, o “coração a bater fortemente”, o “corpo tenso”, etc., então ele poderá, nesta fase, aprender técnicas e estratégias psicológicas para ajudar a lidar com estes problemas; técnicas de auto-relaxamanto) e, em terceiro lugar, c) a fase prática, onde o atleta automatiza o processo de aprendizagem anterior e integra o que aprendeu nas situações reais de competição, tentando assim tirar o máximo partido das estratégias treinadas (ex: considerando o mesmo atleta, ele vai agora procurar aplicar as técnicas de controle de ansiedade que aprendeu nas sessões anteriores às situações competitivas reais que costumam dar origem aos sinais fisiológicos referidos) (Weinberg & Gould, 1995).

A questão que se pode colocar a seguir é quanto tempo costuma demorar um PTCP e, principalmente, quem deverá ser o responsável pela sua aplicação. Relativamente à primeira questão, em termos óptimos, pode-se afirmar que a preparação mental dos atletas deverá seguir de perto a metodologia de treino definida pelo treinador ao longo da época desportiva tendo, por isso, destinado um horário e local específico para a sua realizar. Assim sendo, uma ou duas sessões semanais com a duração de uma a duas horas será suficiente para aplicar e realizar eficazmente a preparação psicológica dos atletas. A implementação dos PTCP nestes moldes implica a cedência, por parte do treinador, de tempo que estava definido para outras tarefas do treino, o que nem sempre é fácil, principalmente quando nos aproximamos dos momentos decisivos das épocas desportivas, onde o tempo se torna cada vez mais escasso para as outras áreas do treino.

No entanto, se tivermos em conta que através deste programa de treino de competências psicológicas em vez de falhar penaltis, acertar com as bolas no poste ou simplesmente deixar passar o adversário no momento do remate, vamos sim executar com eficácia e extrema competência todas as nossas tarefas pedidas pelos técnicos. Valerá a pena apostar em dirigir algum do tempo do treino para este tipo de programa.

A competição não se ganha só com os golos, ganha-se sim com a capacidade de execução e decisão no momento certo. E tudo isto é muito mais que treino, é sim treino cognitivo-comportamental, treino de competências psicológicas.

Ricardo Cardoso -Psicólogo