O rendimento de um profissional de futebol, de um jogador ou de um árbitro, por exemplo, não depende exclusivamente da sua forma física. Está sobretudo relacionado com a sua estabilidade pessoal, profissional e emocional. Porque no campo ele será apenas o reflexo mecânico daquilo que, em última análise, é enquanto pessoa, enquanto homem. Daquilo que é no seu dia-a-dia. Pai, irmão, filho, amigo, marido. Se atravessa uma fase boa, em que toda essa sua vida social e pessoal corre tudo às mil maravilhas, então o sucesso da sua performance será quase garantido. Estará mais concentrado, motivado, animado, disponível. Sentir-se-á mais lutador, capaz de atingir o céu, de conquistar o mundo e de arrasar. E arrasa!

Se, por outro lado, algo o preocupa, incomoda, aborrece, perturba, muito dificilmente conseguirá compartimentalizar esse fator desfavorável da função que desempenha no terreno de jogo. Aquele assunto pendente, a lesão que teima em não passar, a birra com a namorada, a chatice financeira, o drama familiar, a doença do amigo. Tudo isso pode transformar o melhor dos atletas, o mais competente dos profissionais, menos capazes. Porque no momento das grandes decisões, do tudo ou nada, a capacidade de discernir, de definir, de acertar, de fazer a diferença, está ferida, afetada, beliscada.

Numa mente sã, que se quer e deseja quase infalível, não cabem cinzentismos ou dúvidas. Nessas alturas, o melhor mesmo é ser fiel ao mais básico princípio de integridade e dizer: “Preciso de uma pausa. Volto quando me sentir gigante de novo”.

Não há nada mais valioso que a grandeza e honestidade inteletual de uma pessoa. Não para com os outros, mas para consigo. Deve-o a ele, e à competição que tanto gosta.

Duarte Gomes – Árbitro Internacional