Um tumor cerebral forçou o esquerdino a deixar os relvados aos 24 anos, quando representava o Caldas. Duas décadas depois, voltou a calçar as chuteiras.

Nunca é tarde para recomeçar. Marcelo Prudêncio comprova-o. O beneditense viu interrompida uma promissora carreira de futebolista aos 24 anos, devido a um astrocitoma (tumor cerebral), que o impediu de continuar a fazer o que mais gostava. Duas cirurgias e 21 anos depois, resolveu aceitar o convite do GD Peso e voltou a calçar as chuteiras, sendo reforço do clube para a época 2020/21. Já se estreou na 1ª Divisão distrital e, apesar dos 45 anos, pretende “ser útil à equipa” de Marco Ferreira, agradecendo “a oportunidade” que lhe foi dada pelo emblema do concelho das Caldas da Rainha.
“A idade não é tudo no futebol e é um grande desafio mostrar que ainda consigo jogar. Sempre gostei de superar desafios ao longo da minha vida e procuro ser uma pessoa positiva. O treinador desafiou-me a vir treinar, correu bem e, quando me perguntaram se queria ser inscrito, aceitei”, explica o esquerdino, que jogou nos nacionais jovens no Beneditense, Caldas e Marinhense e que chegou a ter contrato com o Sporting.
“Nos jornais chegou a sair que tinha assinado com o Benfica, mas foi com o sr. Aurélio Pereira que acertei tudo. Tinha 15 anos e viver em Lisboa era algo que me causava algum receio. Por isso, fui para o Caldas, que tinha uma carrinha que me levava e trazia a casa”, recorda o beneditense, que ainda foi chamado por Carlos Queiroz e Nelo Vingada aos treinos da Seleção Nacional sub-17, num estágio realizado nas Caldas e na Nazaré.
Habituado a jogar nacionais como extremo-esquerdo e a fazer golos e assistências, Marcelo Prudêncio subiu a sénior no Marinhense em 1993/94, mas acabou cedido por seis meses ao Nazarenos, onde foi adaptado a lateral-esquerdo. Mais um desafio superado. “A equipa jogava com três defesas e tinha a missão de fazer todo o flanco. Conquistámos a Taça Distrito de Leiria e foi um passo na carreira, porque quando voltei ao Marinhense fui titular como lateral-esquerdo”, relembra o jogador.
Na época seguinte somou 26 jogos e 1 golo na antiga 2ª Divisão B e, em 1995/96, voltou ao clube do coração, o Beneditense, onde teve temporadas em que era o único jogador da terra.
“Tínhamos grandes equipas e muitos jogadores que saíram para os campeonatos profissionais. Fizemos belos campeonatos e na segunda época já era capitão”, relembra o mediador de seguros, que, após 113 jogos e 17 golos pelo Beneditense no terceiro escalão do futebol nacional decidiu dar novo rumo à carreira.
“Optei por voltar ao Caldas, porque tinha o objetivo de chegar mais longe e o clube tinha outra projeção”, sublinha. Só que a temporada 1999/2000 no Caldas representou um travão numa carreira que prometia muito.
“Fui diagnosticado com um tumor cerebral e obrigado a parar de jogar e fazer desporto. Foi difícil, mas sempre fui uma pessoa positiva e passei a dar valor a cada dia que vivia”, frisa Marcelo, que, só anos depois, começou a fazer atividade física regular.
“Joguei em torneios de futsal e nos veteranos e sempre me senti bem. Mas nunca tive um convite formal para voltar a jogar futebol”, nota o esquerdino, até receber uma chamada de Marco Ferreira. O treinador do Peso conhecia o passado desportivo do jogador e daí a começar a treinar foi um pequeno passo.
“Fiz alguns treinos, senti-me bem e creio que posso aportar experiência à equipa. Não sei se vou jogar muito, mas vou dar sempre o meu máximo, superar objetivos e motivar os colegas de equipa, pois foi sempre assim que encarei a vida”, remata o antigo treinador dos juniores do Beneditense, um mediador de seguros que celebra 46 anos a 10 de dezembro e ainda tem sonhos para cumprir com uma bola nos pés.

Joaquim Paulo – Gazeta das Caldas