Os termómetros indicam sete graus negativos quando Pedro Ferreira atende o Maisfutebol. Em Aalborg, norte da Dinamarca, o inverno é implacável. O médio de 23 anos tem-se agarrado às boas notícias deportivas para dar a volta às saudades de casa e às dificuldades provocadas por um clima agreste. «Tem nevado duas ou três vezes por semana, aqui é assim.»
Pedro esteve oito anos ligado ao Sporting, mas foi a temporada de grande nível no Varzim a convencer um dos grandes do futebol dinamarquês a contratá-lo. O Aalborg já foi quatro vezes campeão da Dinamarca – a última em 2014 – e andou pela Liga dos Campeões. O projeto encantou o rapaz nado e criado em Vieira de Leiria, mas Pedro Ferreira quer mais.
«Gosto de estar cá, gosto do clube e dos meus colegas, mas é óbvio que não tenciono ficar aqui muitos anos ou acabar aqui a carreira.» Campeão nacional de sub19 e sub15 no Sporting, 37 vezes internacional pelas seleções jovens, médio português em grande destaque na Dinamarca e que no final de 2020 foi eleito para a equipa ideal do campeonato nórdico.

PARTE II: «Senti que o Sporting já não acreditava em mim e rescindimos»

Maisfutebol – É um dos melhores jogadores da liga dinamarquesa, mas em Portugal ainda poucos o conhecem. Não saiu demasiado cedo de cá?
Pedro Ferreira – Acho que não. Estava na II Liga, o Varzim não me queria deixar sair e exigia uma verba considerável por mim. Acho que nenhum clube em Portugal aceitaria pagar o que o Aalborg pagou [350 mil euros, de acordo com o Transfermarkt – 220 mil para o Varzim, que não detinha a totalidade do passe] e que o Varzim queria. Tomei a decisão certa, porque o campeonato é bom, surpreendeu-me pela positiva.

MF – Entrou na equipa ideal do ano da liga dinamarquesa e lidera os rankings de desarmes e de quilómetros feitos por jogo. Foi obrigado a alterar o seu estilo no campo ou sempre foi um médio assim?
PF – Esses números refletem o que sempre fui como médio, sim. É verdade que quando jogava no Sporting estava sempre a atacar, usava menos o corpo, tentava meter mais qualidade do que impor o físico. A minha ida para o Varzim mudou-me essa parte do meu jogo. Passei a ser mais agressivo e a correr mais, melhorei nisso. No Mafra estava emprestado pelo Sporting e, se calhar por pensar que podia voltar, não lutava tanto. Nessas circunstâncias não damos tudo, pensamos que tens um clube atrás onde podemos regressar. Quando rescindi com o Sporting e fui para o Varzim, percebi que tinha mesmo de dar à perna.

MF – Que retrato faz da liga dinamarquesa?
PF – Há equipas que jogam bom futebol. Diria que é parecida com a nossa II Liga, pelo futebol mais direto da maior parte das equipas, mas com jogadores de maior qualidade. O Copenhaga, o Brondby e o Midtjylland são as equipas de topo e jogam a Liga dos Campeões e a Liga Europa. Vim para um campeonato superior, sem dúvida.

MF – O Aalborg está um bocadinho abaixo dessas equipas que mencionou?
PF – No plano individual, o Aalborg está no top-quatro dinamarquês. Infelizmente temos tido muitos lesionados e isso tem afetado os jogadores mais preponderantes. Isso explica os resultados não tão bons. O capitão Lucas Andersen e o sueco Oskar Hiljemark são dois médios que jogaram ao meu lado e estão lesionados. Fazem falta, claro.

MF – O objetivo é voltar às competições europeias?
PF – Claramente. O Aalborg quer voltar ao topo do futebol dinamarquês. Temos excelentes condições de trabalho, de topo mesmo. Estou rodeado de bons profissionais e não me falta nada. No inverno quase toda a gente passou a treinar mais nos pisos sintéticos, mas o Aalborg tem seis ou sete relvados naturais. Acho que em Portugal só os três grandes e o Sp. Braga têm condições assim.

MF – A pandemia obriga-o a ter um dia a dia simples aí em Aalborg?
PF – Nas últimas semanas tem sido casa-trabalho, trabalho-casa. Treinamos de manhã, almoçamos no centro de estágio, fazemos trabalho de ginásio depois até às três e voltamos para casa. Nas folgas tento levar a minha namorada e o meu cão a qualquer lado, apanhar ar. A pandemia está aparentemente controlada, melhor do que em Portugal. Quando cheguei no verão, aliás, parecia que não se passava nada. Os restaurantes e os cafés estavam cheios de pessoas sem máscara, andávamos como queríamos. Em dezembro os casos aumentaram muito [18 de dezembro foi o pior dia, com 4508 novos infetados] e está tudo fechado, só os restaurantes funcionam em take away. Agora temos à volta de 400 casos novos por dia, melhorou bastante.

MF – O Zeca é o outro português da liga dinamarquesa. Costumam estar juntos?
PF – Copenhaga fica a cinco horas de distância, é muito longe. Falámos agora no nosso jogo [2-3 para o Copenhaga, a 3 de fevereiro], antes de começar, e pouco mais. Ainda por cima perdemos, depois de estar a ganhar 2-0, fiquei com azia e no final não me apetecia falar com ninguém (risos).

MF – E tem um novo treinador, o espanhol Martí Cifuentes.
PF – Gosto das ideias dele. Quer sair a jogar com qualidade, futebol ofensivo, é muito sério no trabalho e a equipa vai melhorar. Entrou há pouco tempo, tem tudo para dar certo. O objetivo é ficar nos seis primeiros lugares e entrar na fase de apuramento de campeão.

MF – O Pedro joga num meio-campo com dois elementos?
PF – Sim, normalmente jogamos com um duplo pivô no meio-campo. Fui sempre médio-defensivo. No Sporting joguei algumas vezes a «8» nos juvenis e nos juniores, na Youth League cheguei a jogar a médio esquerdo para fechar bem o espaço central, mas fui sempre um médio mais defensivo. Mas gosto de ter bola, gosto de jogar e entregar bem.

MF – Está a gostar da liga dinamarquesa, planeia continuar por aí mais uns anos?
PF – Gosto de estar cá, gosto do clube e dos meus colegas, mas é óbvio que não tenciono ficar aqui muitos anos ou acabar aqui a carreira. Tenciono, quando houver a oportunidade, sair para outro campeonato. Gosto da mentalidade das pessoas de cá, chegam sempre a tempo e horas aos compromissos (risos) e ajudam-me no que preciso. Para já, tenho de ser justo, estou muito feliz. Já criei algumas ligações de amizade com colegas dinamarqueses, um já veio jantar cá a casa.

MF – Já arriscou experimentar alguma iguaria dinamarquesa?
PF – Nem por isso, não (risos). Como diariamente no clube, mas é tudo à volta de massa e arroz. A pandemia fechou os restaurantes e ainda não experimentei nada típico.

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