Entrevista – Diário de Leiria
Texto: José Roque
Foto: Luís Filipe Coito

Aos 39 anos, Cédric Jorge prepara-se para pendurar as chuteiras depois de uma vida dedicada ao futebol. Em entrevista ao Diário de Leiria, o avançado recorda episódios engraçados que viveu nos balneários e a tristeza de não ter trabalhado com José Mourinho, nem de se ter estreado na I Liga Portuguesa.

No final da época vai colocar um ponto final na carreira aos 39 anos. O que o levou a tomar esta decisão?
Cédric Jorge Nunca pensei que teria uma carreira tão longa, mas as coisas proporcionaram–se, as lesões não apareceram e o facto de me sentir bem fisicamente ajudaram a este prolongar da minha carreira. Mas agora está mais que na altura.

É uma decisão irreversível ou o apelo de um bom projecto pode fazê-lo mudar de ideias?
Não, é mesmo o fim. Está na altura. Sinto-me orgulhoso daquilo que consegui construir, mas é tempo de me dedicar de corpo e alma à minha família.

Está mentalizado para deixar de jogar?
Sinceramente, penso que nunca estamos preparados especialmente quem ama este desporto. Posso dizer que no final da época passada pensei seriamente no final de carreira e foram dias duros. Acabou por se proporcionar mais uma época, mas no contexto em que vivemos permitiu-me pensar de forma clara e aceitar que os ciclos tem um início, um meio e um fim.

Do que vai sentir mais falta?
O que mais vou sentir falta é certamente de tudo o que envolve este desporto: os treinos, os domingos de jogo, as concentrações, o convívio e o nervoso miudinho antes de entrar em campo.

Fez a sua formação na UD Leiria, entre outros. Que memórias tem dessa altura?
As minhas memórias da minha formação na UD Leiria são as melhores. Tive a sorte de apanhar um bom balneário e amigos espectaculares. Ainda hoje mantemos ligação e contactos frequentes. Lembro-me de ter ingressado nos juvenis depois de fazer um torneio de futsal na praia do Pedrogão organizado pelo falecido sr. Ferreira e pelo sr. Delfino, que tinham ligações ao Leiria e onde estavam presentes elementos da formação do Leiria. Na altura jogava no GD Santo Amaro (Ortigosa), o clube da minha terra e de onde também já tinham saído, no ano anterior, dois jogadores para o Leiria – o Verdasca que era um dos meus melhores amigos e o Pipinha. O torneio correu-me muito bem e acabei por ser convidado a fazer testes e acabei por ficar. São memórias fantásticas das quais destaco uma vitória nossa no antigo pelado contra o Benfica na qual lutávamos para integrar as quatro equipas para lutar pelo título de campeão nacional e onde tínhamos perdido na Luz por 2 a 0, e em nossa casa acabamos por ganhar por 3-0 tendo feito um dos golos.

Como é que passou de defesa a um dos avançados mais temidos do distrito?
Sim, é verdade que comecei como lateral. Aliás, na altura que vim para o Leiria fiz o meu primeiro ano como médio direito e depois, no meu primeiro ano de júnior, é que comecei a lateral direito. Fiz cerca de 10/11 anos a lateral mas depois voltei a subir no terreno e houve um jogo, quando estava no GD Guiense, em que mister José Godinho me viu capacidades para jogar a avançado e logo na estreia fiz seis golos. Acabei por ser o melhor marcador nesse ano com 29 ou 30 golos, já não me recordo, e tem sido aí que tenho jogado nos últimos anos

Na sua transição para sénior na UD Leiria, acabou por ser emprestado ao Bidoeirense (2000/01) e ao Mirense (2001/02) sem nunca ter tido oportunidade de jogar pela equipa principal que estava na I Liga. Ficou um amargo de boca?
Sim, ficou. Até porque nesse ano subiram quatro jogadores ao plantel sénior para sermos profissionais: eu, o Micas, o Regueira e o João Paulo, que já era um habitual no plantel sénior. Eu fui o único que não conseguiu jogar na primeira divisão. Era um sonho meu ter jogado na primeira divisão, infelizmente não consegui mas guardo muitas e boas memórias dessa altura, desde a pré-época, a estágios, ao jogo de apresentação contra o Sporting. O fazer parte de uma equipa profissional foi um sonho tornado realidade e esse consegui realizar. Um facto curioso foi que na semana que fui emprestado ao Bidoeirense houve uma onda de lesões e tiveram de recorrer aos juniores e se não me engano até acabaram por jogar. Não guardo mágoa de nada. Sou muito agradecido por tudo o que me aconteceu.

Na ocasião teve a oportunidade de trabalhar com José Mourinho e Manuel José, dois ‘monstros’ do futebol português. Que impressão ficou deles enquanto técnicos e enquanto homens e líderes?
Tive a oportunidade de trabalhar com o mister Manuel José que foi, sem dúvida, dos treinadores que mais me marcou. Era um treinador muito exigente e não era uma pessoa de sorriso fácil, mas aprendi muito com ele. Era um líder nato e conseguia tirar o máximo dos jogadores. Quanto ao mister José Mourinho acabei por não trabalhar com ele (foi uma das mágoas que ficou), pois era para ter feito a pré-época do ano seguinte, mas acabei por não fazer e ainda hoje não sei o porquê.

Que memórias tem desses tempos a trabalhar com a equipa principal da UD Leiria?
Guardo as melhores memórias dessas experiências. São coisas que se levam para a vida e que nunca irei esquecer. Lembro-me que quando me informaram que iria assinar contrato profissional e que iria fazer parte do plantel no ano seguinte fiquei tão eufórico que não consegui dormi nessa noite. Lembro-me de ter ido assinar contrato com o meu pai e de sentir um enorme orgulho. Assinei contrato de quatro anos, obviamente cheio de sonhos. O primeiro ano sempre a treinar com a equipa sénior. Foi mágico estar rodeado de jogadores como o Bilro, o falecido João Manuel, o Costinha, o Tiago, o Derlei, o Nuno Valente, o Renato, o Leão, o Vouzela, entre outros, e sem esquecer o mítico Dinda. Depois, sucederam-se os empréstimos e nunca me deixarem poder fazer a pré-época com a equipa. Mas não guardo mágoa de ninguém.

Quando regressou à UD Leiria, já com 32 anos, a equipa ficou perto da subida, mas não o conseguiu.
Consegui concretizar o sonho de regressar ao meu clube de coração ao 32 anos, através do senhor Miguel Grácio. Era um ano em que éramos para começar na Divisão de Honra mas houve uma desistência e fomos convidados para disputar o Campeonato Nacional de Seniores.

A nível pessoal realizou uma boa época, com muitos golos, mas a segunda temporada já não correu tão bem, tendo a equipa disputado a manutenção. Lembra-se do que correu mal?
A nível colectivo estivemos perto da subida, mas não conseguimos. Mudámos três vezes de treinador. A nível pessoal fiz uma grande época pois jogava regularmente e acabei a temporada com 16 golos. A segunda época não foi tão boa como a primeira. Não que sirva de desculpa, mas num plantel de 22/23 éramos dois ou três que trabalhávamos após os treinos. Acabei por não prescindir do trabalho e o mister tinha as suas ideias. Mas mesmo jogando menos ainda consegui fazer alguns golos decisivos.

Ao longo da sua carreira passou por diversos clubes. Houve algum clube que o tivesse marcado neste trajecto. Porquê?
É verdade, ao longo da minha carreira passei por muitos clubes. Poderia ter feito carreira só em um ou dois, mas gosto de desafios e fui tentando sempre melhorar a nível pessoal. São todos especiais pois vivi sempre mais bons momentos do que maus. Voltar ao meu clube – Santo Amaro – foi especial, no Monsanto passei três fantásticos anos onde recuperei a alegria de jogar. Em todos os outros foi um orgulho poder ter representado todos estes clubes históricos. São todos especiais à sua maneira.

Quais os episódios mais divertidos que viveu no futebol?
Lembro-me particularmente de duas histórias. Uma no estágio que fiz com o plantel sénior do Leiria, na Urgeiriça, onde tínhamos treinos bi-diários. Lembro-me que, na altura às 8h00 já estava um calor abrasador. Após o treino da manhã o local sagrado era a piscina para nos refrescarmos e onde ia toda a gente… menos um elemento: o Dinda. Mas andava sempre perto da piscina. Como não tinha muita ‘moral’ nunca tentei saber o porquê de o Dinda não ir para a piscina. Nos dias seguintes aconteceu o mesmo. Até que, ao quinto dia, o Dinda estava à beira da piscina e vem o Bilro por trás e empurra-o para a água. Conclusão: o Dinda não sabia nadar e tivemos de entrar todos na piscina para o ‘salvar’. Outra história que guardo foi na altura de Monsanto. Jogava comigo o avançado guineense Milá, que jogou muitos anos no Beneditense e no Fátima. Num dia tivemos a visita do Sindicato de Jogadores que lá ia dar uma palestra para fazermos parte do Sindicato. Caso alguma coisa acontecesse estávamos ‘protegidos’ e o Milá equipava-se ao meu lado e andávamos sempre a brincar com ele por causa da idade. Então, ele pediu-me para preencher a sua folha e comecei por lhe pedir o nome. Na data de nascimento perguntei-lhe o ano em que tinha nascido no qual ele me responde: ‘19 e qualquer coisa’. Foi uma gargalhada geral.

O que teria feito de diferente na sua carreira? Tem arrependimentos?
Tenho muito orgulho daquilo que consegui construir, sempre com o meu trabalho e com ajuda apenas dos meus amigos e familiares. Nunca tive ‘padrinhos’. Não faria nada de forma diferente. Sempre fui uma pessoa amiga do meu amigo e muito frontal. O meu maior orgulho é poder dizer que não tenho inimigos no futebol, pelo contrário, tenho grandes amigos. O fazer algo diferente gostaria de ter tido a oportunidade de ter feito a pré-época com o mister Mourinho. As coisas poderiam ter sido diferentes.

Já alguma vez pensou em enveredar pela área do treino?
Nunca me vi como treinador, nem tenho ambição de o ser. Não tenho o perfil necessário para tal, nem a qualidade que se exige. Quanto ao estar relacionado de alguma forma com o futebol não digo que não queira, mas a minha prioridade será sempre a minha família e mais concretamente a minha filha.

Que diferenças encontra na forma como se joga e se trabalha desde quando começou a jogar até aos dias de hoje?
As principais diferenças é que na minha altura as oportunidades eram muito poucas e as condições que a maior parte dos clubes têm agora nada tinha a ver com as daquela altura. Agora é mas fácil ter a oportunidade de chegar a profissional. Existe mais gente a ver divisões inferiores, existe mais visibilidade para essas divisões (como o canal 11) e depois o futebol agora é muito mais táctico, mais completo. |

Respostas rápidas

Clube do coração: Tenho três amores: Benfica, UD Leiria e GD Santo Amaro.

Jogador de referência: O meu ídolo Rui Costa, Kata e o meu irmão Didi (que tinha um pé esquerdo fenomenal).

Melhor jogador com quem trabalhou (e porquê): João Manuel, porque além das qualidades futebolísticas que todos lhe conhecíamos era um ser humano fantástico, sempre com uma palavra para os mais novos; André Sousa (actualmente Marinhense), um trabalhador nato e um verdadeiro líder; e Kata, apesar de já o ter apanhado em final de carreira, a qualidade estava lá.

Melhor treinador com quem trabalhou (e porquê): Não consigo nomear um. Seria injusto da minha parte. Recordo Frederico Biel, Quim Vieira, Marcelino, Manuel José (pelos motivos que já disse), João Henriques (apesar de ter trabalhado pouco tempo com ele, dava para ver que ia chegar longe), José Godinho, Rui Bandeira, Bilro, Tocha, Nascimento (pelo rendimento e confiança que me deram), Casquilha, Tó Gui, Luciano, Sandro. Espero não me esquecer de nenhum. O meu muito obrigado a todos. Sem eles nada disto teria sido possível. |