Entrevista Fez toda a formação da UD Leiria, “clube do coração”, mas é na Liga 2 que João Vieira tem brilhado ao mais
alto nível. Em entrevista ao Diário de Leiria, o avançado recorda as lesões graves que quase o levaram a deixar o futebol e
explicou ainda os motivos da sua saída da UD Leiria.

O João assinou recentemente pelo Casa Pia. Quais são as expectativas para a nova época, novamente na II Liga?
João Vieira: Assinei pelo Casa Pia devido ao projecto que eles me apresentaram. Já conhecia uma parte da equipa técnica de ter trabalhado com ela anteriormente, o que me deixou mais à-vontade. É uma instituição conhecida a nível nacional e internacional. É um clube em crescimento com excelentes condições para um jogador evoluir e é isso mesmo que pretendo. Tenho tudo para fazer uma época superior à época passada. O objectivo passa por fazer melhor tanto a nível colectivo (clube) como pessoal.

Voltando ao seu início de carreira, o João fez toda a formação na UD Leiria. Que memórias tem desses tempos?
São excelentes tempos, de uma grande nostalgia. Recordo-me de jogar durante anos no pelado de Santa Eufémia onde estava
lá sempre o ícone da rouparia o Sr. Ilídio, recentemente falecido. Lembro-me bastante dos dérbis que tinha frente aos Marrazes, GRAP, SL Marinha. Tudo jogos que desde miúdo já mexiam bastante comigo. Já na altura era muito exigente comigo mesmo.

Depois, na passagem para sénior, foi para a Madeira representar o Marítimo. Como foi deixar o ‘ninho’ para seguir o sonho do futebol?
Foi uma experiência que me fez crescer bastante, sem dúvida. Viver longe da família foi muito complicado. Fez-me valorizar ainda mais o tempo que eu tinha quando estava presente. Aprendi bastante com os mais velhos lá do clube. Foi onde comecei a ver com outros olhos o mundo do futebol profissional e a sua exigência.

Depois de ter brilhado no Campeonato Nacional de Seniores ao serviço do Maritimo B e do Torreense, surgiu a oportunidade de rumar à II liga, nomeadamente para o Chaves onde faz uma grande época. Foi fácil a adaptação a um escalão superior?
Foi muito fácil a adaptação. As pessoas de Chaves são muito acolhedoras e adorei viver lá. Sendo uma pequena cidade todos te conhecem e apoiam o clube. Foi uma excelente época a nível pessoal. Só foi mesmo pena não termos conseguido
subir de divisão no último jogo. É um momento que ainda tenho de amargura na carreira pois aquela multidão não merecia tal desfecho.

Depois aconteceu o salto para a I Liga, ao serviço do Moreirense. Era o concretizar de um sonho?
Sim, era mesmo o concretizar do sonho. O Moreirense apostou forte em mim, as expectativas eram altas, mas infelizmente tive o infortúnio de me lesionar. Apesar de tudo só posso agradecer como me trataram na recuperação das lesões. Foram sempre muito prestáveis comigo. Nunca deixaram que me faltasse nada.

Foi no Moreirense que teve lesões graves. Elas tiveram um impacto grande na sua carreira?
Sim, no Moreirense, em dois anos, tive duas lesões graves. Não escondo que teve um impacto grande na minha carreira.
Tive cerca de ano e meio para debelar duas lesões muito graves: fractura da tíbia e perónio e ruptura do ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo. Infelizmente, aos meus 18 anos já tinha tido também uma ruptura do ligamento cruzado anterior do joelho direito. Foram sempre ‘marcas’ que o futebol me foi deixando e nessas alturas pensei deixar o futebol. Mas aí tenho de realçar a minha família, que nunca me deixou cair, e se consegui ter sucesso após estas três lesões graves deve-se a eles. Acima de tudo à minha esposa que é de uma força extrema e foi o pilar que me fez suportar todo o sofrimento.

Fica uma mágoa grande não ter conseguido estrear-se na I liga?
Claro que fica, mas creio que tenho conseguido construir a minha carreira a pulso e isso deixa-me orgulhoso.

Depois de dois anos menos bons (Feirense e Vizela), dá-se o regresso à UD Leiria, para um projecto de subida à II Liga. Como foi regressar a uma casa que tão bem conhecia?
Foi mesmo regressar às minhas origens. Voltar a jogar pelo prazer de jogar e deixar para trás todo o azar que tive com as lesões. Foi a melhor decisão que eu tive para relançar a minha carreira.

Muitas pessoas estranharam na época o João estar a deixar a II Liga para representar a UD Leiria num escalão inferior. Foi uma decisão estratégica?
Sem dúvida que foi estratégica. Foi um relançar de uma carreira onde todos duvidavam das minhas capacidades. Cheguei a
ouvir coisas do género: ‘O João Vieira já não consegue fazer o que fazia’, ‘Entretanto termina a carreira’. Foram coisas que
magoaram bastante de pessoas ligadas ao futebol. Quis provar a todos que estava bem e que era capaz de coisas grandes.

No primeiro ano na UD Leiria faz uma época fantástica,com 22 golos em 33 jogos. Contudo, a UD Leiria não conseguiu a subida frente ao Mafra. Foi doloroso perder daquela maneira, tendo até marcado um golo contra o Mafra?
Foi o momento mais doloroso da minha carreira. Um leiriense a representar o clube da cidade, com o estádio praticamente
cheio, a vencer 1-0… era perfeito. De repente, sofremos um golo sem jeito nenhum e tudo cai. Foi um campeonato super injusto. Tivemos a infelicidade de sofrer um golo mesmo no fim que deitou abaixo o nosso sonho de subir à Liga 2. Fizemos um campeonato imaculado.

No ano seguinte, continuou a apresentar bons números, mas a crise financeira que a SAD da UD Leiria atravessava
‘obrigou-o’ a sair a meio da temporada. Como sentiu esse período em que os jogadores ficaram largos meses sem salários?
Foi um período bastante complicado de gerir. Eram muitas palavras e poucas acções. Eu ainda tinha a ajuda de toda a minha família, mas havia jogadores de outros continentes sozinhos cá, sem receber. Foi muito difícil de ver. Eramos um grupo bastante unido, tentávamos abstrair de todos os problemas quando estávamos dentro de campo e isso acho que conseguimos com sucesso. Estivemos sempre bem classificados.

Há muitos adeptos que viram a saída do João como uma traição. O que realmente aconteceu?
É verdade, na altura fui bastante criticado pelo facto de ter saído do clube. Estávamos sem receber há três meses e sem perspectivas de receber. Nessa altura, ao aperceber-me desse facto estava aberto a ouvir propostas. No entanto, a SAD antecipou-se e marcou uma reunião comigo para me comunicar que deixavam-me sair para onde eu quisesse, pois muito possivelmente não iriam conseguir cumprir comigo aquilo que estava acordado. Pedi para pagarem faseado o que estava em falta de salários e cumpriram na íntegra comigo. Agradeço a sinceridade e honestidade que tiveram comigo. Aquilo que as pessoas dizem de ter rescindido por justa causa é falso.

Por ironia do destino, nessa época foi representar o Vilafranquense que foi disputar a subida de divisão contra a
UD Leiria. Como foi disputar aqueles dois jogos decisivos, tendo inclusivamente marcado um grande golo em Leiria?
O destino quis que defrontasse o clube do meu coração. Foi bastante complicado já que tive de colocar as minhas emoções de lado e defender a equipa onde estava a jogar. Fiz um grande golo que ajudou a ‘inclinar’ a eliminatória para o nosso lado. Depois fomos mais competentes nos penaltis no segundo jogo e subimos à Liga 2.

A partir daí o João Vieira tem cimentado a sua carreira na II Liga, mas aos 29 anos ainda há sonhos por concretizar
no futebol?
Há sempre sonhos para concretizar e objectivos para atingir. Sou uma pessoa muito focada no trabalho que faço e vivo bastante o presente. Todos os dias trabalho para ser melhor jogador do que era ontem.

O João Vieira já pensa o que fará depois de terminar a sua carreira no futebol? Gostaria de continuar ligado à
modalidade ou será tempo para abraçar outras paixões?
Sim, penso abraçar o futebol na vertente de treinador. Acho que a experiência que tenho adquirido ao longo dos anos pode-me dar algumas bases para ser treinador. Já tenho o nível 1 mas não pretendo ficar por aqui.|

Texto: José Roque – Diário de Leiria
Foto: Luís Filipe Coito