Médio Oriente –  Técnico leiriense embarcou para o Irão, após convite de amigo de juventude, e quer ser campeão pelo Sepahan. Gosta do povo e da cultura que o acolhem e elogia o desenvolvimento do futebol.

Rui e José são amigos desde os tempos em que representaram a União de Leiria, em 1982/1983. A amizade permaneceu ao longo destes quarenta anos e depois de vários convites, Rui Bandeira decidiu aceitar (finalmente) a proposta lançada pelo amigo e embarcar até ao Irão.
O treinador leiriense e ex–coordenador técnico da Associação de Futebol de Leiria juntou-se à equipa técnica do vieirense
José Morais, na época passada, como adjunto. Os antigos internacionais portugueses Hugo Almeida (defesa) e Paulo Santos
(guarda-redes) e o preparador físico João Cunha completam o grupo de trabalho que comanda o Sepahan, clube de Isfahan, a
terceira maior cidade do país, a cerca de 340 km de Teerão.
O Zé falou comigo em junho, na altura não se proporcionou e comecei a época [2022/2023] a treinar os juniores do Sp. Pombal, sempre com a noção de que seria um projeto que iria deixar a meio. Em novembro, houve abertura e fui”, conta Rui Bandeira.
Esta é a primeira vez que o treinador, de 59 anos, integra uma estrutura profissional de futebol, um sonho que alimentava
há vários anos. Depois do GDR Bidoeirense, AD Portomosense, SCL Marrazes, At. Marinhense, Academia CCMI e Sp. Pombal, quando a oportunidade surgiu, não pensou duas vezes. Mesmo que o destino fosse o Médio Oriente. “Vamos sempre com alguns receios, mas são infundados. O povo é fabuloso, extremamente afável, cordial. É uma cultura completamente diferente da europeia”, afirma, completando que “a língua é extremamente difícil” e sabe apenas pronunciar os números e as cores, em parte obrigado, por causa dos coletes de treino. A comunicação é em inglês e sempre acompanhado de um tradutor. Gosta da forma acolhedora como a população recebe quem chega ao país e é abordado, na rua, para tirar selfies. “Vivo num hotel, no centro da cidade, e gosto de andar a passear e nunca tive qualquer constrangimento. A vida é calma e tranquila e, às vezes, quando me perguntam como é o Irão, tenho a noção de que nós, de alguma forma, vivemos ali, mas numa bolha”, diz o professor de Educação Física.
Aproveita, ainda assim, sempre que pode, para voltar a Leiria “carregar baterias”. A última vez foi no início do mês, quando
conversou com o REGIÃO DE LEIRIA, no mítico local de reencontro dos leirienses: a praça Rodrigues Lobo, com o castelo
ao fundo.

Sem pontos e sem estátua
O Sepahan FC ocupa atualmente a 2ª posição da Persian Gulf Pro League (Liga Pro do Golfo Persa, em português), o principal campeonato de futebol do Irão, a um ponto do primeiro classificado, o Esteghlal FC, e tem como principal objetivo a conquista do título. No entanto, são muitos os “fenómenos” que acontecem, dentro e fora de campo, que condicionam o trabalho dos dois técnicos com ligações à região de Leiria.
Em dezembro, a federação iraniana devolveu quatro pontos que tinham sido retirados ao clube, por alegado incumprimento do
fair-play financeiro. O Sepahan tem um “budget” de 7,5 milhões de euros, reforçou a equipa, mas poucos dias antes do campeonato começar, foi obrigado a renegociar os contratos, para cumprir com o fair play financeiro.
É uma coisa totalmente absurda, porque não se pode estabelecer um budget igual para todas as equipas quando os objetivos são manifestamente diferentes”, conta Rui Bandeira.
Antes, em outubro, em jogo da Liga dos Campeões asiática, os sauditas do Al Ittihad recusaram jogar no estádio do Sepahan,
devido à presença da estátua de Qasem Soleimani – um antigo general iraniano, visto como um inimigo da Arábia Saudita -, junto aos bancos de suplentes. “O Al Ittihad tinha treinado no estádio no dia anterior ao jogo, a estátua estava lá, foi aprovada pela federação e o homem é considerado um herói nacional. É discutível, mas é um herói no Irão. Acabaram por tirar a estátua, fomos castigados e obrigados a jogar em Teerão. Felizmente levantaram o castigo”, conta Rui Bandeira, que está pela primeira vez a competir na Liga dos Campeões.
Dia 15 de fevereiro, o grupo comandado por José Morais joga os oitavos de final perante nova equipa saudita, o Al Hilal, orientado por Jorge Jesus. “Diria que é provavelmente a melhor equipa desta zona asiática. Será um jogo não diria 50-50, mas onde vamos ter as nossas possibilidades e jogamos em casa, o que será um fator adicional para nós”, defende.

Espaço e beleza
A partir de amanhã, dia 26, e até 2 de fevereiro, a equipa estará a estagiar no Qatar, a aguardar o desempenho do Irão na Taça Asiática para retomar o campeonato.
E o futuro? “Do futebol iraniano? Tendencialmente vai crescer e eles vão deixar de olhar tanto para o físico, onde ainda assenta
muito do trabalho, e começar a olhar para o tático. O futebol vai ganhar beleza, conteúdo e ganhar mais espaço. O facto dos
clubes contratarem treinadores europeus vai contribuir para alterar um pouco a mentalidade e a forma de pensar o jogo”, entende.
Na realidade, perguntámos pelo futuro do Rui Bandeira. “Por agora será no Irão”, uma vez que a equipa técnica renovou contrato, no início do mês, por mais três anos. “O Zé [Morais] é naturalmente um treinador conceituado naquela zona do globo, com um currículo extremamente vasto. É uma pessoa extraordinária e os meus companheiros da equipa técnica também são fantásticos e isso ajuda claramente a trabalhar”, realça, lembrando que a conquista do campeonato é o objetivo a curto prazo.

Marina Guerra – Região de Leiria